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A obrigação em estar feliz ou sintonizado com o lado positivo da vida está levando as pessoas a negarem emoções básicas como a tristeza, o medo e a raiva, além de valorizarem apenas a alegria como único sentimento aceitável, mesmo que seja embasado em uma falsa sensação de contentamento.

Certamente você já leu diversos textos ensinando a manter o pensamento positivo diante das adversidades. De fato, sintonizar a mente nessa energia faz bem para a saúde, ajuda a olhar o lado bom de todas as situações e nos torna pessoas mais resilientes. Entretanto, a construção e a valorização desse discurso pela indústria da autoajuda gerou uma inversão na percepção das pessoas, de modo que algumas emoções básicas dos seres humanos passaram a ser vistas como impróprias ou inadequadas.

Fato é que não existe emoção boa ou ruim, adequada ou inadequada. A emoção é uma condição natural do ser humano. Ocorre que a cultura opressora e até certo ponto excludente de que devemos estar alegres a qualquer custo, faz com que muitas pessoas passem a sufocar e a negar suas emoções, perdendo a oportunidade de aprender a lidar como elas e de se desenvolver emocionalmente.

Todo ser humano sente medo. E se isso não for uma verdade para você, procure ajuda psiquiátrica imediatamente, pois você pode colocar a sua vida e a de outras pessoas em risco. O medo é uma emoção protetora que ajuda a perceber que nos falta algum recurso para alcançar a coragem. O medo torna-se um problema quando se transforma em fobia e nos impede de agir diante de uma situação normal do cotidiano como dirigir ou andar de avião por exemplo. Você só percebe isso se admite que tem medo.

Todo ser humano sente raiva. E a boa notícia é que a força da raiva pode ser um ótimo impulsionador para fazê-lo crescer na vida e alcançar seus objetivos. O grande problema é que além de negar a raiva e congelar essa emoção, as pessoas que não sabem lidar com ela acabam por descontá-la nas pessoas mais próximas. Raiva que não é trabalhada pode se transformar em ira descontrolada e cega, causando atos que podem acabar, literalmente, com uma vida.

Todo ser humano sente tristeza e ainda bem que isso acontece, pois a tristeza é um importante sinal de que algo está desajustado. Esta emoção nos ajuda a identificar quem são as pessoas que realmente estão do nosso lado, pois é fácil encontrar amigos quando tudo aparenta estar bem. A negação da tristeza é tão grave que pode levar alguém à depressão, pois se nega tanto que quando se admite, já não tem mais solução a não ser tratamento médico. Impor a alegria é vestir uma máscara que cedo ou tarde cairá.

É preciso, também, saber lidar até com a alegria. Existem momentos em que sua alegria não é bem vinda e saber medir isso é uma questão de bom senso. Existem momentos em que o excesso de alegria pode te comprometer pelo resto de sua vida. Existem momentos em que a alegria nada mais é do que uma fuga daquelas emoções que aprendemos a negar por serem “negativas” ou até “erradas”.

Identificar e aceitar a emoção é o primeiro passo para saber como lidar com ela e como a mesma pode ser útil para ajudá-lo no seu desenvolvimento pessoal. A vida é repleta de situações que vão exigir equilíbrio emocional, contudo, não se aprende a andar de bicicleta sem uma bicicleta, não se aprende a nadar sem estar em uma piscina ou rio. Você precisa sentir a emoção para aprender a lidar com ela. Você precisa admitir que a sente.

A tirania da positividade está tirando nossa opção de sentir. Aliás, algumas pessoas estão permitindo ser privadas de suas emoções para vestir uma personagem alegre, feliz e contente, postar seus cliques em redes sociais e fazer com que você compre a ideia de que suas vidas são maravilhosas.

Liberte-se dessa cultura que impõe a positividade a qualquer custo. Ter pensamento positivo, olhar o lado bom das coisas, acreditar que a vida vai melhorar é bem diferente de privar-se das suas emoções e transformar-se em ser mecânico e robótico que não consegue sentir nada ou que finge não sentir. Viva suas emoções. Elas são a melhor escola que você tem para enfrentar as inevitáveis vicissitudes da vida.